sábado, 17 de setembro de 2011

Prólogo.

Ela estava já, como planejado. A garota loira, de cabelos curtos e lisos, olhos castanho-esverdeados grandes e de altura mediana se olhava no espelho, fazendo caras e bocas enquanto se maquiava. Seus olhos brilhavam, sua mente viajava enquanto, por pouco, não borrava toda a maquiagem de seu rosto.
Usava um vestido branco até o joelho; tomara-que-caia, justo em cima como um corpete e com saia solta. Seus sapatos eram igualmente brancos, com a ponta aberta, mostrando as unhas pintadas de francesinha. Estava feliz.
Por pouco tempo.
Havia outra garota. Cabelos longos presos em um coque alto, usando camiseta e calça igualmente pretas, camuflando-se na árvore onde se dependurava, olhando a cena. Ela não parecia feliz com aquilo, porém, estava determinada a fazê-lo.
Seus olhos concentravam-se na garota loira que agora penteava os cabelos em frente ao mesmo espelho sem moldura que ia até o chão, grudado na parede rosa clara de seu quarto.
Um cheiro de enxofre começou a penetrar no ambiente. A garota olhava para os lados e nada via. As sombras, como eram conhecidas aqueles pequenos e tenebrosos seres que, na verdade, eram minúsculos demônios pretos que, por andarem sempre unidos, pareciam-se com sombras, entraram no quarto pela porta da sacada completamente aberta, que deixava entrar o ar úmido do litoral entrar, porém, a garota loira não as conseguia ver.
A morena, que se encontrava sentada em um galho da árvore que encostava suas folhas na cerca da sacada, nada entendia. A garota loira deveria ver as sombras, não deveria?
Elas continuaram a invadir o quarto da garota que deveria ter no máximo 15 anos e começava a parecer assustada; ignorou aquela sensação, achando ser paranóia. Foi caminhando lentamente para a sacada, onde as sombras estavam. Olhou para o céu.
A lua estava cheia e brilhante, iluminando toda a cidade. Era como se as luzes dos postes e das estrelas tentassem copiá-la, mas nunca conseguissem ser iguais. O ar estava úmido, mas não ventava. Não havia sequer uma nuvem no céu. As folhas das árvores não balançavam, a não ser as de uma; a de sua janela.
Ela assustou-se quando olhou para a árvore que se mexia e viu os olhos da garota que a espionava. A outra garota também assustou, e com um leve aceno de cabeça, sussurrando: “faça” suficientemente alto para que não só as sombras, mas também sua futura vítima ouvissem, ordenou que o trato se cumprisse; as sombras sabiam sua missão.
Apenas um toque daqueles pequenos seres criados por Lúcifer foram o suficiente para causar-lhe uma dor sufocante. Queria gritar, mas não conseguia. Era como um daqueles pesadelos que tivera por noites à fio desde os sete anos.
Seus sapatos brancos começaram a tomar um tom escarlate enquanto pequenas linhas da mesma cor desciam de seus pés até o chão. Os cortes foram subindo; pernas, braços, todo o corpo da garota foi coberto pelas sombras. Mas elas não se contentavam apenas em causar-lhe cortes profundos, fazendo a garota sangrar. Elas queriam mais, era esse o combinado com a garota na árvore, que fechara os olhos para não ver a cena.
As sombras tiraram do chão a garota loira que chorava e tentava sem sucesso clamar por socorro. Ela conseguiu enfim gritar. Foi um grito ensurdecedor, que fez com que os vizinhos se assustassem. Porém, não foi o suficiente.
No segundo seguinte, via-se a garota loira completamente ensangüentada caída em um arbusto de roseiras. Seu vestido branco rasgado, como se por garras felinas, sua maquiagem borrada, formando uma linha preta dos olhos até o final do rosto, mostrando o percurso feito por suas lágrimas.
A garota que estava na árvore abriu imensas asas pretas, tão escuras quanto sua roupa ou uma noite sem luar e saltou, tirando seus pés do galho da árvore em que estava e embrenhando-se noite à dentro. As sombras continuaram lá, olhando ao longe a garota estatelada no chão, com respiração tão curta que parecia estar morta. Como num salto, mergulharam no corpo da garota.
A missão estava cumprida.
A rua se agitara em menos de meia hora. Movimentada, barulhenta e iluminada, não estava como costumava ser, e isso fez com que a multidão ao redor da casa de esquina crescesse mais e mais. A polícia tentava controlá-los. Os que sabiam o que acontecera queriam notícias, os que não sabiam, pedia explicação.
Uma mulher chorava, ajoelhada em seu jardim, segurando a mão ensangüentada de sua filha. O marido, também ajoelhado, segurava os ombros de sua esposa, com os olhos marejados enquanto via sua filha naquela situação. Os paramédicos faziam os primeiros atendimentos e, minutos depois, levaram a garota para a ambulância e seguiram para o hospital mais próximo. A mãe dela, uma mulher aparentemente da alta sociedade, estava na ambulância com sua filha. Seu marido seguia-os atrás, com uma BMW preta.
Porém, apenas o corpo da garota loira seguia na ambulância. Sua alma observava a situação ao longe, sem entender nada. Queria acompanhá-los, mas sentia-se repelida de seu corpo, como se houvesse uma barreira entre os dois. Uma luz brilhante surgiu por trás da garota, sugando-a. Ela foi puxada pela mesma, desaparecendo dentro dela.

Sim, esse é o prólogo do meu livro que ainda não tem nome. 

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