quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Epitáfio

Sentou-se na sarjeta. O meio fio que era amarelo à anos atrás, quando se mudara para aquela cidade, estava apagado, desbotado, por causa da chuva. Sem contar a sujeira, marcas de pneu e tudo mais. Mas ele não ligava. 
Apoiou os cotovelos nos joelhos, cobriu o rosto com as mãos e deixou que as lágrimas descessem em disparada por seu rosto. Estava sozinho. Já deveria ser mais de duas da manhã. Preferia assim. 
Os postes não funcionavam, a lua estava encoberta por nuvens de chuva, e a única iluminação provinha de umas poucas estrelas que ainda não haviam sido cobertas por aquele princípio de tempestade. Trovejou.
Ele desejou que aquele raio que causou um clarão no céu tivesse acertado sua cabeça, seria bem mais fácil do que aturar tudo aquilo novamente. E seriam mais inúmeras vezes.
Junto com a risca transparente de lágrimas, descia uma linha vermelha escarlate, esta partindo de sua testa. E doía, assim como os hematomas por seu rosto, por seu corpo, coberto com seu sobretudo preto sujo de lama, de quando o empurraram e começaram a chutá-lo, momentos antes, num beco escuro, quando ele voltava do trabalho. Trabalho de férias era realmente uma merda, principalmente nas épocas festivas, que tinha que ficar até quase meia noite nas lojas, para vender os presentes de Natal para os atrasados. E, para conseguir dinheiro extra, tinha passado por tudo aquilo. 
E o que doía mais não eram os machucados no corpo, eram os ferimentos na alma. Aliás, não é pecado ser gay, ou é? Porque esse era o motivo da surra que tinha tomado dos valentões. 
Como se esses garotos, que não tem cérebro, apenas músculos, fossem mais do que ele, só por serem héteros. 
Ele não aguentava mais. Levantou-se, decidido. Limpou as lágrimas e saiu andando, chutando o chão, estourando a ponta do seu coturno preto. 
Quando já tinha andado por um bom tempo, começou a chover. A chuva era gelada, seus pingos eram grossos e ardidos. Mas em contato com a pele do garoto, esquentavam. As gotas estremeciam, o garoto continuava indiferente. A dor dele era maior do que qualquer coisa externa. 
A ponte era alta. Embaixo, um rio revoltado, seguindo a fúria das gotas de chuva, que caiam freneticamente agora. Mais e mais trovões explodiam no céu, causando uma luz estrondosa por dentre as nuvens escuras que encobriam qualquer claridade que poderia haver lá. Mas ele não precisava de luz, sabia como fazer, o que fazer. 
Na manhã seguinte, uma família devastada, uma cidade em choque, vândalos impunes pelo crime indireto que cometeram. Mais um adolescente suicida, que não aguentou a pressão de ser diferente.
"Ninguém comum vai marcar sua vida, vai marcar a história. São os diferentes que fazem isso.", esse era seu epitáfio. 

2 comentários:

  1. "Ninguém comum vai marcar sua vida, vai marcar a história. São os diferentes que fazem isso."
    massa essa frase, gostei :}
    go go isa, ter 1 bilhão de fãs do seu blog, hehe sz.
    -Black

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  2. UASHUASHUASH obrigada meu anjo, fico feliz que tenha gostado.

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